AMALAYA | “DOUTOR DE SI MESMO”
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“DOUTOR DE SI MESMO”

Sempre sonhei em falar com uma plateia de intelectuais.

Minha fala é criada na relação com a plateia, não preparo um texto para compartilhar, porque da minha perspectiva, qualquer texto preparado me da a impressão de trocar a possibilidade de participar de um processo de criação, que sem duvida é sempre um risco (que eu adoro correr), em troca de uma garantia do controle de falar o que sinto que já sei, reduzindo a fala à categoria de explicação, convencimento, debate, uso de poder e todos esses processos escolarizados que já não me fazem necessários.

Minha fantasia era que imersa em um campo intelectual, ganharia a cada troca de respiração dessa sonhada plateia, a inspiração para uma comunicação permeada de insigths e criações de alto nivel.

Dia desses, falando para uma plateia desconhecida sobre minhas experiências na desescolarização, me deparo com um campo confuso, tenso e fechado para relação, sentia no ar medo e formalidade, um campo impenetrável que fazia sentir-me abandonada em minha fala, e até me fez duvidar do sentido de estar ali.

Após terminar o encontro soube que tinha ali diante de mim minha tão sonhada plateia de intelectuais.

Primeiro senti pena de não saber antes do valor da minha plateia com a ilusão que se soubesse teria conseguido entrar em seus corações e suas mentes pela sincera simpatia que sinto por pensadores. Simpatia provada e testada em minhas leituras de filósofos que tanto me inspiram e me permitem rescrever junto com o autor cada livro que leio através das praticas que crio com os pensamentos que vibram em meu corpo.

Por outro lado, pouco importava saber de ante mão sobre essa plateia, porque eram doutores da intelectualidade alheia, eram especialistas em pensadores e não propriamente os pensadores que tanto sonhei.

Essa é a ilusão que a escolaridade nos traz, acreditar que o conhecimento é nossa garantia.

Somos compostos de uma rede onde a força está no “entre”, nas relações de todas as partes, em suas conexões.

Saber algo que não integra a rede como um todo é um conhecimento morto que não nos permite criar as sinapses que nos traz à lucidez para romper o caminho da obediência/rebeldia e chegar ao campo da criação.

Podemos sentir em nós essa desconexão quando apesar de termos consciência de um “saber”, seguimos com a mesma emoção de sempre guiando nossas ações.

Costumamos dizer que fulano “perdeu a cabeça” ao ter uma reação descontrolada diante de um acontecimento provocativo, mas como a própria palavra indica, fulano perdeu o controle emocional, seu conhecimento não é pário para essa força instintiva do ser vivo que controla todas as suas ações.

O ser humano, diferente dos outros seres vivos, é capaz de desenvolver através das conexões entre todas as forças que o atravessam, um desenvolvimento emocional, para chegar a vida adulta não sendo esse cavaleiro (razão) sobre um cavalo selvagem (emoção), que busca tolerância para controlar seu desejo de sair por aí eliminando todos que o provoca.

Para chegar a essa adultisse é necessário ter a coragem de deixar de ser doutor especializado em um grande pensador, e sim, tornar-se doutor de si mesmo, especializado em sua autocriação constante em todas as suas relações.

Essa rede social que queremos fortalecer, antes de mais nada, precisa ser ativada em nós, através de nossa integridade de pensar, sentir e agir de modo alinhado.

A experiência, seja artística, intelectual, física, psicológica, etc, é porta de entrada para o todo, para a rede, que gera a capacidade de transmutação de todas as emoções estagnadas que nos aprisionam em reações previstas, que depois de tanto tempo reprimidas, já não tem mais a ligeireza das reações infantis, ganhando a força do ódio que criam ações barbaras antivida.

Não será a intelectualidade/escolaridade que nos salvará do caminho da destruição diária da humanidade.

Arrisco dizer que a conexão de todas as forças (inclusiva as desconhecidas pela mente) que nos compõe, nos permitirá trazer à luz (renascimento) e lucidez de que somos seres autocriadores de si mesmo constantemente através de todas as nossas relações.

A intelectualidade já arrisca a dizer que “a escola é um êxito e por isso mesmo, talvez, já não precise existir”.

Em um ser conectado, essa frase permitiria arriscar a ação dessas palavras.

Não estou sugerindo terminar com todas as escolas, mas com essa escola que já conhecemos e que não nos serve mais, restando a seus frequentadores servi-la, reduzidos a alunos-funcionários de um sistema que desativa suas conexões através da segmentação, da fragmentação e da desqualificação do ser criador.

Já não sonho mais com uma plateia de intelectuais.

Já não sonho mais com nenhuma plateia.

O que precisamos é criar nossa rede de “doutores de si mesmo”!