AMALAYA | “NEM EU, NEM VOCÊ, NEM NÓS”!
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“NEM EU, NEM VOCÊ, NEM NÓS”!

É intrigante a manifestação da ilegitimidade humana.

Dá a impressão que essa ilegitimidade surgiu desde que o ser humano desenvolveu a consciência de que tem consciência.

Todos os seres vivos nascem com o saber necessário para que sua espécie siga presente na vida; as abelhas nascem sabendo construir suas colmeias, as aranhas nascem sabendo tecer suas teias e os seres humanos caçadores/coletores não tinham crise existencial.

Animais não tem flexibilidade no saber, mesmo porque o que fazem já é o bastante para que a espécie siga existindo, e quando encontram uma ameaça, como uma mudança climática, o encontro com uma nova bactéria e até mesmo um inseticida, eles aprendem com a experiência e transmitem essa nova informação para o campo morfogenético confiando que a natureza irá desenvolver uma resistência contra a aniquilação de sua espécie. Para eles, pouco importa salvar a si mesmo, mesmo porque parece que não tem consciência de vida e morte, simplesmente existem. O que realmente importa é manter a espécie em vida.

E de tempos em tempos acontece algumas transmutações, uns esticam o pescoço, outros perdem as patas, uns ganham asas, outros as perdem, uns seguem no mar e outros vão para a terra, e ainda teve os que saíram da caverna e começaram a construir uma civilização, multiplicando, diferenciando e potencializando a vida nesse planeta.

A melhor definição que escutei sobre evolução foi: “Evolução é o erro que deu certo”.

Por erro nasce uma girafa com o pescoço mais longo, essa girafa tem mais acesso a alimentação que lhe é mais adequada, por isso vive mais e melhor e carrega em seu DNA sua mutação.

Tudo isso para dizer que animais não sofrem com a sensação de ilegitimidade, pois mesmo quando nascem errado, da certo.

O ser humano tem flexibilidade em seu saber, tem a possibilidade de viver em um campo de infinitas possibilidades, mas vive em busca de garantia e segurança que entra em conflito com essa característica da vida humana.

É realmente intrigante essa sensação de ilegitimidade…

Teste de ilegitimidade: você já se perguntou: “qual o sentido da minha vida?” ou já pensou: “quero ser alguém na vida”, “preciso encontrar a minha missão!”

Só busca legitimidade quem se sente ilegítimo.

Ser ilegítimo gera a sensação de impotência que por sua vez leva a busca do PODER para suprir esse vazio e essa inadequação.

Todo PODER tem como polaridade a IMPOTÊNCIA.

Buscamos “EMPODERAR” aqueles que se sentem impotente.

De um modo simples eu diria que essa ilegitimidade está sustentada por uma desconexão primordial.

Em algum momento da história o ser humano começou a acreditar na existência de uma entidade chamada “EU”, porém o “EU” só pode existir se também houver o “OUTRO”.

Inauguramos aqui uma separação, deixamos de ser uma única espécie e criamos a espécie “EU” e a espécie “OUTRO”.

Para não estarmos sozinhos e frágeis nesse vasto mundo, procuramos por espécies de “OUTROS EUS” parecidos o suficiente para nos unirmos em uma subespécie “NÓS”, que no dia a dia chamamos de “turma”, “grupo”, “galera”…surgindo infinitas camadas de classificações e qualificações que distinguem cada vez mais “NÓS” dos “OUTROS”.

Se temos uma digital única isso nos leva a crer que temos algo de singular, mas isso também acontece com todos os outros seres vivos, seja animal ou vegetal, todo ser é singular, nem por isso se tornam indivíduos iludidos pela separação “EU/OUTRO”.

Um bebê quando nasce não se sente separado do outro, ele é o todo e tudo é ele, porém desde a concepção o bebê já dá sinais de sua singularidade pois a mãe começa a ter sensações muito diferentes e que não voltará a sentir igual quando tiver outra gravidez.

Todo bebê nasce singular, e deixa isso muito claro desde o início.

Ele não é um indivíduo pois se sente parte do todo e não é igual a ninguém, pois percebe o mundo de uma perspectiva singular.

Ele poderá seguir desenvolvendo sua singularidade em um mundo sem separação, sem “EU/OUTRO”, e ele não deixará de ter uma digital exclusiva e uma vibração singular ao mesmo tempo que se percebe como um todo.

Podemos chamar isso de paradoxo, onde forças distintas se compõe, sem que uma precise prevalecer a outra.

Nos gabamos tanto da nossa condição racional perante os outros animais e vegetais, mas seguimos sendo somente seres dotados de razão e capacidade lógica, ainda usada de modo muito precário, pois só a usamos para justificar nossos atos anti vida.

Integrar instinto, emoção e razão talvez seja a conexão que precisamos para viver no paradoxo SINGULAR/MÚLTIPLO.

Talvez esse caminho nos tire do surto generalizado da ilegitimidade que a humanidade sofre, e nos reconecte com a sensação que tivemos ao nascer. A de que somos todos legítimos em nossas singularidades para compor uma única espécie que juntos com todas as manifestações de vida podemos criar um meio ambiente propício para todos.